Juiz Odilon de Oliveira, uma história exemplar neste Brasil nada exemplar
Juiz Odilon de Oliveira Trabalhando há um ano em Ponta Porã (MS), na fronteira com Paraguai, o juiz de direito Odilon de Oliveira já condenou 114 traficantes. À noite, ele estende o colchonete no chão da sala onde fica seu gabinete, puxa um edredom e dorme ali mesmo. No fórum da cidade, sete agentes da Polícia Federal, fortemente armados, dão segurança permanente ao juiz que está condenado à morte pelo crime organizado. O juiz vive confinado no fórum, só sai quando é extremamente necessário, e ainda assim sob forte escolta.Em um ano, o juiz Odilon de Oliveira condenou 114 traficantes a penas que, somadas, atingem 919 anos e seis meses de cadeia, e ainda confiscou os bens de todos eles. O resultado dessa cruzada é que ele também perdeu a liberdade, assim como seus condenados.Diz o juiz exemplar: "A única diferença é que tenho a chave da minha prisão". Traficantes brasileiros que agem no Paraguai estão dispostos a pagar US$ 300 mil para quem matar o juiz. Desde junho do ano passado, quando o juiz Odilon de Oliveira assumiu a vara de Ponta Porã, porta de entrada da cocaína e da maconha distribuídas em grande parte do País, as organizações criminosas tiveram muitas baixas. Nos últimos 12 meses, sua vara foi a que mais condenou traficantes no País. Oliveira confiscou ainda 12 fazendas, em um total de 12.832 hectares, 3 mansões (uma delas, em Ponta Porã, avaliada em R$ 5,8 milhões), 3 apartamentos, 3 casas, dezenas de veículos e 3 aviões, tudo comprado com dinheiro das drogas. Por meio de telefonemas, cartas anônimas e avisos mandados por presos, Oliveira soube que estavam dispostos a comprar sua morte. Diz ele: "Os agentes descobriram planos para me matar, inicialmente com oferta de US$ 100mil". No dia 26 de junho, o jornal paraguaio La Nación informou que a cotação do juiz no mercado do crime encomendado havia subido para US$ 300 mil. "Estou valorizado", brincou o juiz Odilon de Oliveira. Ele recebeu um carro com blindagem para tiros de fuzil AR-15 e passou a andar escoltado. Para preservar a família, mudou-se para o quartel do Exército e, em seguida, para um hotel. Há duas semanas, decidiu transformar o prédio do Fórum Federal em casa: "No hotel, a escolta chamava muito a atenção e dava despesa para a Polícia Federal". É o único caso de juiz que vive confinado no Brasil, por enquanto. . A sala de despachos de Odilon de Oliveira virou quarto de dormir. No armário de madeira, antes abarrotado de processos, estão colchonete, roupas de cama e objetos de uso pessoal. O banheiro privativo ganhou chuveiro. A família (mulher, filho e duas filhas, que ia mudar para Ponta Porã, teve de continuar em Campo Grande). O juiz só vai para casa a cada 15 dias, com seguranças. Odilon de Oliveira teve de abrir mão dos restaurantes e almoça um marmitex, comprado em locais estratégicos, porque o juiz já foi ameaçado de envenenamento. O jantar é feito ali mesmo. Entre um processo e outro, toma um suco ou come uma fruta. Comenta o juiz: "Sozinho, não me arrisco a sair nem na calçada". Uma sala de audiências do fórum virou dormitório, com três beliches e televisão. Quando o juiz precisa cortar o cabelo, veste colete à prova de bala e sai com a escolta: "Estou aqui há um ano e nem conheço a cidade". Na última vez que foi a um shopping, foi abordado por um traficante. Os agentes tiveram de intervir. Azar do tráfico que o juiz tenha de ficar recluso. Acostumado a deitar cedo e levantar de madrugada, ele preenche o tempo com trabalho. De seu "bunker", auxiliado por funcionários que trabalham até alta noite, vai disparando sentenças. Como a que condenou o megatraficante Erineu Domingos Soligo, o Pingo, a 26 anos e 4 meses de reclusão, mais multa de R$ 285 mil e o confisco de R$ 2,4 milhões resultantes de lavagem de dinheiro, além da perda de duas fazendas, dois terrenos e todo o gado. Carlos Pavão Espíndola foi condenado a 10 anos de prisão e multa de R$28,6 mil. Os irmãos Leon e Laércio Araújo de Oliveira, condenados respectivamente a 21 anos de reclusão e multa de R$78,5 mil e 16 anos de reclusão, mais multa de R$56 mil, perderam três fazendas. O megatraficante Carlos Alberto da Silva Duro pegou 11 anos, multa de R$ 82,3 mil e perdeu R$ 733 mil, três terrenos e uma caminhonete. Aldo José Marques Brandão pegou 27 anos, mais multa de R$ 272 mil, e teve confiscados R$ 875 mil e uma fazenda. Doze réus foram extraditados do Paraguai a pedido do juiz, inclusive o "rei da soja" no país vizinho, Odacir Antonio Dametto, e Sandro Mendonça do Nascimento, braço direito do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. "As autoridades paraguaias passaram a colaborar porque estão vendo os criminosos serem condenados", comenta o juiz Odilon de Oliveira. Ele não se intimida com as ameaças e não se rende a apelos da família, que quer vê-lo longe desse barril de pólvora. Ele é titular de uma vara em Campo Grande e poderia ser transferido, mas acha "dever de ofício" enfrentar o narcotráfico: "Quem traz mais danos à sociedade é megatraficante. Não posso ignorar isso e prender só mulas, pequenos traficantes, em troca de dormir tranqüilo e andar sem segurança". Esse é um grande exemplo. O Brasil precisa de algumas dezenas de juízes como esse. E aí então seria reestabelecida a esperança. O Congresso Nacional deveria dar a maior medalha existente no Brasil para esse juiz.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Ô Samuel, como é que tu escreve uma coisa dessas, "nao sou um bom escritor. estou muito longe disso. muito mesmo!!! apenas vou expressar o que eu acho!!!"???
Que belo texto jornalístco foi esse em? Caramba!!! Eu dava a vida pra escrever assim...
Mas, quando ao conteúdo... Infelizmente muitos, como eu, sequer sabem da existência de tal juíz. E o Brasil, parece só valorizar aqueles que roubam e que são corrúptos... afff
beijo
Postar um comentário